Hoje sinto que poderia devorar o mundo. Sei que isso aqui tá parecendo mais um blog especializado em viagens mas na realidade não é a vida uma longa estrada em si?
Sinto o gosto de descobrir que as distâncias desse mundo podem ser irrelevantes. Agora com a passagem para Londres em mãos tenho certeza de que finalmente farei as pazes com uma cidade que entrou de supetão na minha vida 7 anos atrás.
Direto do túnel do tempo:
Em 2002 estava desanimada em Barcelona, com o coração meio partido e não tinha nada a perder. Ainda não existia a cachorra na minha vida, tampouco amarras. Coloquei algumas roupas na mochila e me mandei para Londres sem pensar muito como me viraria com pouquíssima grana em uma das cidades mais caras do mundo, mas a fé de que tudo daria certo superava o medo.
Tinha um amigo morando em uma casa com muitos brasileiros e me somei ao grupo. Havia semanas em que éramos 10 pessoas dividindo o mesmo banheiro... mas a casa tinha um jardim lindo onde, como já comentei aqui antes, recebíamos a visita de uma raposa e esquilos todas as manhãs.
Nos primeiros dias passava horas caminhando, porque isso é uma das poucas coisas grátis por lá. Descobri que os supermercados têm um sistema para se livrar da comida que está com a data de validade quase vencida: no fim do dia eles fazem liquidação de todos os tipos de produtos quase um 100% mais barato. Dessa maneira eu continuava comendo bem sem me arruinar financeiramente.
Na segunda semana, em uma dessas andanças consegui um emprego em uma pizzaria de Convent Garden, na qual o dono era um napolitano que se encaixava perfeitamente no perfil estereotipado do mafioso italiano: bruto, machista, prepotente e desonesto.
Minha função era servir mesas e odiar esse senhor. Para dar uma idéia do estilo dele: o cara ficava com grande parte da gorjeta dos empregados, descaradamente. Quando foi questionado sobre o tema justificou dizendo que era para cobrir os gastos dos pratos e copos que quebrávamos... unbelievable!
Além de tudo era um fascista: só ele podia manipular o aparelho de som e, como um torturador de Guantánamo, nos obrigava a ouvir o disco do Gipsy Kings o-d-i-a-t-o-d-o em modo repeat.
Volare, oh oh
Cantare, oh oh oh oh
Nel blu dipinto di blu
Felice di stare lassu
Ele também nos obrigava a colocar as mesas e cadeiras pra fora para passar o pano de chão 2 vezes, todosantodia... sempre ao som dos Gipsy Kings, até a última gota.
Mas nesse cenário de terror laboral também vivi uma coincidência inesquecível. Um dia estava varrendo o restaurante e vejo uma pessoa com um ar familiar entrando pela porta. Penso que não podia ser possível, mas reconheci que era uma amiga que tinha sido muito próxima na época da faculdade. Foi emocionante reencontrá-la dessa maneira. Ela estava procurado trabalho e acabou ficando na outra filial da pizzaria.
Pouco depois uma das minhas companheiras de casa também começou a trabalhar comigo e por incrível que pareça ríamos muito juntas, principalmente depois que descobrimos que a cozinha estava habitada por uma família numerosa de ratos.
Em paralelo a essa tortura medieval perambulávamos pela modernidade da cidade. Visitando museus, babando no
Tate Modern, fuçando em lojas, investigando todas as novidades musicais na
Virgin Store, sonhando ter dinheiro para comprar todos os cosméticos do
The Body Shop ou saltitando por
Portobello Road, sempre fotografando muito. Tinha até um bar favorito, o
Notting Hill Arts Club. E descobri que Londres é uma cidade colorida, que pulsa de uma maneira única. Tudo, absolutamente tudo no mundo cabe lá dentro.
Mas uma sensação era inevitável: me sentia pobre... sério e sem dramas, viver com pouca grana em Londres é muito difícil e principalmente frustrante. Eu andava com um obsoleto Discman ouvindo Henri Salvador pra cima e pra baixo, mas nem a música francesa era capaz de amenizar a pressão psicológica de sentir que tudo aquilo ultrapassava os limites da minha fé.
Foi então que depois de quase dois intensos meses em território londrino eu decidi pegar o meu banquinho e sair de fininho. Botei a viola no saco e voltei correndo para a minha amada Barcelona, onde tinha deixado tudo em standby por pura precaução.
Back to the future:
Daqui a 15 dias poderei de novo ver as minhas esquinas favoritas, abraçar forte o Tate Modern e comer comida tailandesa em Camden Town em companhia da minha sister e do meu sobrinho. Me belisca que eu nem acredito.
Principalmente já constato com antecipação que nada melhor que um dia atrás do outro, para 7 anos depois poder voltar com a certeza de que nada foi em vão, que tudo aquilo foi fundamental e enriquecedor. Eu levo um pedaço de Londres em mim.
"Por algum tempo que afinal passou depressa, como tudo tem de passar. Hoje eu me sinto como se ter ido fosse necessário para voltar. Tanto mais vivo de vida mais vivida, dividida pra lá e pra cá."